segunda-feira, 12 de outubro de 2026

E se perdermos?

Daniel Braga e Dan Oliver


Companheiros, 

a nossa história é uma história de derrotas.


Perdemos na Comuna de Paris,

nas barricadas, no sangue, na fumaça,

quando os operários ousaram imaginar

que o mundo também podia lhes pertencer.


Perdemos no levante de Rosa Luxemburgo,

quando mataram a rosa

e acreditaram que, com ela,

morreria também a primavera.


Perdemos na Guerra Civil Espanhola,

quando o fascismo avançou sobre a esperança

e o grito de ¡No pasarán!

não foi suficiente para impedir a tragédia.


Perdemos com Mussolini,

com Salazar,

com Hitler.

Perdemos diante das botas,

das prisões, dos campos,

dos livros queimados

e dos companheiros desaparecidos.


Perdemos nas lutas de libertação da África e da Ásia,

quando a independência tantas vezes

não significou liberdade,

e as bandeiras novas

continuaram cobrindo velhas feridas.


Perdemos nas ditaduras da América Latina,

quando nossos sonhos foram perseguidos,

nossos corpos torturados,

nossos mortos enterrados no silêncio

e nossos nomes apagados dos registros.


Perdemos quando o Muro de Berlim caiu.

Perdemos quando a União Soviética acabou.

Perdemos quando anunciaram, com a arrogância dos vencedores,

que a História havia chegado ao fim,

que o capitalismo era eterno,

que não havia alternativa.


E perdemos tantas outras vezes.

Nas fábricas fechadas,

nas greves derrotadas,

nas reformas interrompidas,

nas urnas,

nas ruas,

nas consciências que o medo aprendeu a habitar.


É verdade, também vencemos.

Conquistamos direitos,

arrancamos liberdades,

derrubamos tiranos,

mudamos leis,

mudamos vidas.

Houve revoluções,

houve conquistas,

houve dias em que os de baixo

fizeram tremer os de cima.


Mas não podemos mentir para nós mesmos.

A nossa história é também

uma longa história de derrotas.


E talvez vocês ainda não tenham entendido

o que mais dói em cada uma delas.


Nossas derrotas nunca são apenas

as derrotas de um partido,

de uma direção,

de uma corrente,

de um punhado de dirigentes.


Quando a revolução é esmagada,

não perde apenas uma organização.

Perde o trabalhador que continuará vendendo a vida

por um salário que não paga o mês.

Perde a criança que nascerá sem pão.

Perde a mulher que continuará carregando sozinha

o peso de um mundo injusto.

Perde o camponês expulso da terra,

o povo condenado à fome,

o jovem que aprenderá a chamar de destino

aquilo que lhe foi imposto pela exploração.


Cada derrota nossa

é uma derrota da classe trabalhadora.

E, em alguma medida,

uma derrota da própria humanidade:

da possibilidade de sermos mais

do que concorrentes,

mais do que mercadorias,

mais do que estranhos disputando migalhas

sob a mesa dos poderosos.


Mas, companheiros,

perder não é o mesmo que se dar por vencido.


Se fosse,

não haveria memória operária.

Não haveria sindicatos.

Não haveria Primeiro de Maio.

Não haveria quem ainda pronunciasse

as palavras igualdade, solidariedade, socialismo

sem pedir desculpas por elas.


Se fosse,

nossos mortos teriam morrido duas vezes:

uma sob as armas dos inimigos,

outra sob o esquecimento dos vivos.


Mas estamos aqui.


Depois de Paris,

depois de Berlim,

depois de Madri,

depois de Santiago,

depois de tantas prisões e tantos exílios,

estamos aqui.


Talvez mais cansados.

Talvez mais divididos.

Talvez com menos certezas

e mais perguntas do que gostaríamos.


Mas estamos aqui.


A foice, o martelo, a estrela e o vermelho

não são amuletos contra a derrota.

São sinais de uma escolha:

estar ao lado de quem trabalha

e não recebe o que merece;

de quem tem fome

enquanto o mundo transborda;

de quem é silenciado

porque ousou exigir dignidade.


São sinais de que não aceitamos

que a miséria seja natural,

que a desigualdade seja destino,

que a exploração seja liberdade,

que a vitória dos poderosos

seja a única história possível.


E, se me perguntarem

por que continuo deste lado,

depois de tantas derrotas,

responderei:


Porque não quero uma vitória

que dependa da derrota dos famintos.

Não quero uma ordem

construída sobre os ombros dos explorados.

Não quero pertencer ao mundo

dos que vencem porque outros não tiveram escolha.


Se ser vencedor significa

aprender a conviver com a fome alheia,

chamar de mérito o privilégio,

chamar de paz o silêncio dos oprimidos,

então, companheiros,

eu odiaria estar do lado dos vencedores.


Perdemos.

Sim, perdemos.


E agora?


Agora, recolhemos os livros,

sepultamos nossos mortos,

cuidamos dos feridos,

aprendemos com os erros,

reconhecemos nossas contradições,

recomeçamos o trabalho

e voltamos a caminhar.


Não porque a vitória esteja garantida.

Não porque a História nos deva alguma coisa.

Não porque sejamos incapazes de desistir.


Mas porque, enquanto houver exploração,

a luta continuará necessária.


E enquanto houver alguém

que não aceite que seres humanos

nasçam para viver de joelhos,

haverá uma razão para lutar.


Perdemos, companheiros.


Mas o mundo ainda não está perdido.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Imaculada Conceição


(ou Soneto à minha primeira professora)

Vi uma mulher arrastada no chão.
Ela, de crianças cuida e educa,
até a cria da mão que machuca.
Professora: profissão, não missão.

Foi maculada por bruta mão vil,
Nesta cidade onde chovem viadutos
Estado de choque, gás e tumultos
Lembrou de seus pequenos, e sorriu.

Soldados armados do capital
tingem de rubro o obelisco Central
querendo às guerreiras, amedrontar.

Levanta Conceição, luta e ensina,
que seu exemplo será nossa sina
Sua aula está longe de acabar.


terça-feira, 15 de março de 2016

Filha de Sabarabussu

Sabará de ébano e ouro,
princesinha da estrada real.
Da índia kaxixó e do mouro,
e do emboaba de Portugal.  

Velhas de muitas histórias,
Berço da negra mais bela.
Rainha do Ndongo e Matamba,
sesmaria da nobre donzela.  

As ladeiras te elevam aos céus,
onde a roça grande acaba.
Carmo e Conceição e seus véus.
 
Olhos negros de jabuticaba,
Candura e força em uma só,
Que te guarde a Senhora do Ó!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Urbi et Orbi (haikai)

Seja em Baltimore, em Gaza ou em Curitiba.
A luta acontece.
O povo resiste.

Com licença (poética)

à Fernando, Marcus, Bruno e Davi
Desço do ônibus na capital,
e nada me convida a sentar e
tomar um café com queijo minas
e goiabada cascão.
Em um não-lugar,
peixes do Apocalypse
sobrevoam à nado minha cabeça.
Amazonas guerreiam na Guaicurus.
Tudo cheira jasmim e gás lacrimogêneo.
Daqui há algum tempo terei trinta,
e de belo, não sobrou nem o
horizonte.
Chovem viadutos.
'Na cidade de Jeca Tatu que torce
pro Rogério Ceni'.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Minas Enigma

Fernando Sabino
Minas além do som, Minas Gerais.
(Carlos Drummond de Andrade)

Se sou mineiro? Bem, é conforme, dona. (Sei lá por que ela está perguntando?) Sou de Belzonte, uai.

Tudo é conforme. Basta nascer em Minas para ser mineiro? Que diabo é ser mineiro, afinal? Inglês misturado com oriental? É fumar cigarro de palha, como o poeta Emílio, de Dores do Indaiá? Autran fuma cachimbo. Tem até quem fume cigarro americano. (No bairro do Calafate havia uma fábrica de "Camel".) Em suma: ser mineiro é esperar pela cor da fumaça. É dormir no chão para não cair da cama. É plantar verde pra colher maduro. É não meter a mão em cumbuca. Não dar passo maior que as pernas. Não amarrar cachorro com lingüiça.

Porque mineiro não prega prego sem estopa. Mineiro não dá ponto sem nó. Mineiro não perde trem.

Mas compra bonde.

Compra. E vende pra paulista.

E vém mineiro. Ele não olha: espia. Não presta atenção: vigia só. Não conversa: confabula. Não combina: conspira. Não se vinga: espera. Faz parte do decálogo, que alguém já elaborou. E não enlouquece: piora. Ou declara, conforme manda a delicadeza. No mais, é confiar desconfiando. Dois é bom, três é comício. Devagar que eu tenho pressa.

Apólogo mineiro: o boi velho e o boi jovem, no alto do morro — lá embaixo uma porção de vacas pastando. O boizinho, incontido:

— Vamos descer correndo, correndo e pegar umas dez?

E o boizão, tranqüilamente:

— Não: vamos descer devagar, e pegar todas.

Mais vale um pássaro na mão. A Academia Mineira, há tempos, pagava um jeton ridículo: duzentos cruzeiros — antigos, é lógico. Um dos imortais, indignado, discursava o seu protesto:

— Precisamos dar um jeito nisso! Duzentos cruzeiros é uma vergonha! Ou quinhentos cruzeiros, ou nada!

Ao que um colega prudentemente aparteou:

— Pera lá: ou quinhentos cruzeiros, ou duzentos mesmo.

Quem nasce em Três Corações é tricordiano — haja vista Pelé. Quem nasce em Barbacena tem de escolher a Maternidade: ou é do Zezinho ou do Bias. E a Manchester Mineira, terra do Murilo Mendes? O poeta Nava foi-se embora: "parabéns a Pedro Nava, parabéns a Juiz de Fora". Itabira, calçada de ferro: não aceitou chamar-se Presidente Vargas, continuou digna do itabirano Carlos. E Ouro Preto continua digna de ser vista: ali é a casa do Rodrigo; Renato de Lima, ex-delegado e pianista amador, pintando junto à Casa dos Contos. Afonso é de Paracatu. Em Sabará nasceram Lúcia e Aníbal, além de outros ilustres Machados. Alphonsus, o solitário de Mariana. Os profetas de Congonhas. A cidade de Tiradentes — o que não tinha barbas. O Aleijadinho não tinha mãos. São João del Rei, onde nasceu Otto, o que morrerá batendo papo. Solidário só no câncer? Absolutamente, dona: nas virtudes também, uai. Haja vista a Tradicional Família Mineira, que Deus a tenha. As estações de águas: lembrança de São Lourenço, escrito num copinho. E Lambari, terra de Henriqueta! Monte Santo tem a rua mais iluminada do mundo. E uma ambulância com sirene, que seu filho Castejon arranjou. Itaúna fica num quarto andar do Leblon, no apartamento de Marco Aurélio, o bom. Jeremias, outro bom, mineiro como Ziraldo. Os bonecos de Borjalo só ganharam boca depois que começaram a falar. Mineiro por todo lado! O poeta Pellegrino, como psiquiatra, tem garantida uma numerosa clientela. Amílcar modela Minas em arame. Paulo encontrou Minas depois que saiu de lá. João Leite levou-a para São Paulo, Alphonsus para Brasília, Guilhermino para o Sul. João Camilo ficou. Etiene voltou. Paulo Lima voltou. Iglezias voltou. Jaques voltou.Figueiró continua, Rubião recomeçou.

Um Estado de nariz imenso, um estado de espírito: um jeito de ser. Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado — prudência e capitalização.

O guarda-chuva da proteção financeira, não como lema do Banco do Magalhães mais o Zé Luís, e sim como regra de conduta:

— Meu filho, ouça bem o seu pai: se sair à rua, leve o guarda-chuva, mas não leve dinheiro. Se levar, não entre em lugar nenhum. Se entrar, não faça despesas. Se fizer, não puxe a carteira. Se puxar, não pague. Se pagar, pague somente a sua.

Mas todos os princípios se desmoronam diante de um lombo de porco com rodelas de limão, tutu de feijão com torresmos, lingüiça frita com farofa. De sobremesa, goiabada cascão com queijo palmira. Depois, cafezinho requentado com requeijão. Aceita um pão de queijo? biscoito polvilho? brevidade? ou quem sabe uma broinha de fubá? Não, dona, obrigado. As quitandas me apertencem, mas prefiro bolinho de januária, e pronto: estou sastifeito...

É a hora e a vez de Guimarães Rosa sorrir e dizer pra cumpadre meu Quelemén: perigoso nada, mira e veja, nas Gerais, essas coisas...

Falar de Minas, trem danado, sô. É falar no mundo misterioso de Lúcio Cardoso, Cornélio Pena ou Rosário Fusco, no mundo irônico, esquivo ou pitoresco de Cyro dos Anjos, Oswaldo Alves, Mário Palmério, seus romancistas. E num mundo de gente, seus personagens, que vão de Antônio Carlos a Milton Campos, de Bernardes a Juscelino — vasto mundo! ah, se eu me chamasse Raimundo. Dentro de mim uma corrente de nomes e evocações antigas, fluindo como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais. Leopoldina, doce de manga, terra de meus pais... Prefiro estancá-las no tempo, a exaurir-me em impressões arrancadas aos pedaços, e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim — o mistério da minha terra, desafiando-me como a esfinge com o seu enigma: decifra-me , ou devoro-te.

Prefiro ser devorado.

Chuvas

Em Minas Gerais chove:
Helicópteros com cocaína,
viadutos e lama tóxica.