quinta-feira, 13 de junho de 2013

Torcer ou não torcer, eis a questão?


Certa vez, Luiz Fernando Veríssimo escreveu que o momento mais contraditório para o coração brasileiro, amante do futebol, foi a Copa de 1970.

Torcer para a Seleção era de alguma forma, ser conivente com todo aquele movimento ufanista, do "Brasil, ame-o ou deixe-o" e os noventa milhões em ação, assim como com as torturas que aconteciam nos porões da ditadura.

Por outro lado, como não torcer para uma selação que tinha Pelé, Rivelino, PC Cajú, Carlos Alberto, Tostão, Clodoaldo, Jaizinho, Gérson entre outros?

Estamos mais uma vez vivendo um momento de contradição. Nunca foi tão fácil e tão difícil torcer pela seleção e pela copa no Brasil.

Não porque nossa seleção é tão boa quanto a de 70 (muito pelo contrário - nossos canarinhos são milionários que jogam em times europeus, alguns há tanto tempo que ninguém nem lembra de já ter gritado o nome deles nos times daqui, uma seleção sem carisma, cheia de volantes, com uma estrela - cadente de tanto que é cai cai - com um treinador retranqueiro e ultrapassado), mas porque a Copa é nossa.

Se por um lado é muito legal ver a cidade toda enfeitada com as cores da Copa (mesmo a das confederações), com muitos estrangeiros, novos estádios, mascotes nos produtos, shows espalhados pela cidade, um clima bastante empolgante; por outro, ver uma Lei Geral da Copa ferir nossa autonomia em nome de uma entidade com um histórico quilométrico de fraudes e corrupção como a FIFA, gastos exorbitantes para reformar estádios (sendo que muitos são verdadeiros elefantes brancos), recursos públicos para garantir o lucro de empresas privadas é muito triste.

É triste saber que nossos doces, quitutes, produtos artesanais não poderão ser vendidos porque não são produtos oficiais licenciados pela FIFA. Aquilo que consideramos mais sagrado e tradicional do nosso futebol ser varrido de lado devido às regras de comportamento, e principalmente nosso povo ser expulso dos estádios por conta dos valores absurdos para nossa realidade terceiromundista.

Nos prometeram que as copas (e as olimpíadas) trariam reformas na infraestrutura que seriam herdadas pela nossa população. Quase todas as obras estão atrasadas e já se veicula que não ficarão prontas para os eventos - quem sabe se um dia ficarão prontas?

Mas a copa do mundo é nossa. Quem sabe quando ela voltará a ser aqui. É nossa chance de nos livrarmos da pecha histórica infamante do 'maracanazo', de voltarmos a gostar de Futebol, de amar nossa seleção, torcer por ela. Nós, nossa torcida, nosso povo, inventarmos novas canções (porque a chata "Sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor" já deu o que tinha que dar) e reinventarmos nosso jeito de torcer.

Que essa Copa nos traga muitas felicidades.
Nosso povo precisa, nosso povo merece.
Mas mais do que isso, que essa Copa nos faça refletir sobre quem somos, quais as nossas prioridades, e principalmente, qual país queremos ser.

Muita força para o povo brasileiro em sua luta histórica pela emancipação!
Muito sucesso para nossa esquete canarinha!

Como Gonzaguinha nos ensinou, viva o povo brasileiro, trabalhador, que não foge da luta, não corre da raia e que constrói a manhã desejada! E nós estamos pelaí!

Daniel Braga
Historiador, professor, brasileiro.

domingo, 7 de abril de 2013

Pátria Amada

Tu sente a dor mas não sabe de onde veio a pancada.
Nasceu inocente e puro, e cresce aprendendo se prendendo e se corrompendo.
Você tem um sonho, terá de comprá-lo. O preço é a própria submissão.
Há o mundo perfeito onde há plenitude, sucesso e prestações fixas.
Sua voz tem poder, tem timbre. Mas é sufocada pelo som do canal 12.
E o umbigo foi importante até você nascer, mas olha só pra ele o tempo todo.
Existe um pastor no poder, mas existe poder num pastor?
Não há quem consiga mandar onde ninguem obedeça, mas obedecemos demais.
Rede social: A rede te prendeu e o social nunca existiu.
E a necessidade de SER foi substituída pela necessidade de TER.
o pátria amada!...
 Cristiano Coimbra

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Revela-te


(“Por ser encantado, o amor revela-se” - Djavan)

Dediquei-me a um acróstico escrever,
Mas no dicionário, teu nome não encontrei.
Os livros antigos insistiam em esconder,
À ela em segredo, o que entre letras revelei.

As constelações se encheram de ciúmes,
Mesmo a lua, diante da beleza se escondeu.
Cantada em verso e prosa até os cumes,
ou num silencio de um vale, sentimento que nasceu.

Não haviam batizado uma estrela,
sequer homenageado uma flor.
Era nome tão intimo e belo, que revelaria o amor.

Nem nos sagrados textos estava,
Nem título dava a canção.
O nome misterioso estava gravado no coração.

terça-feira, 10 de abril de 2012

O jasmim

O encanto surgiu de repente,
da mais singela das flores.
Esperança renova e se sente,
renascer suspiros de amores.

Seu perfume exalado no ar,
traz a paz que ilumina e abençoa.
Sua candura fiel a inspirar,
seu sorriso nos ares ecoa.

A pura semente lançada,
bem cuidada, com fé, germinou,
na rocha, a dama da noite brotou.

O brilho da estrela desperta
e anuncia seu desabrochar,
e abre o coração, pro raro gosto do amar.

Víscera

Joguei fora meu coração.

Joguei fora meu coração,
não porque não batesse mais,
mas por causa das desilusões.

Coração é músculo, é víscera,
tripa, pedaço de carne.
Pulsa, é verdade, mas é
só um pedaço de carne,
Conjunto de tecidos, células...

Joguei fora por não me interessar mais
(ainda que a vida me interesse).

Joguei fora meu coração
pois, só cumpria sua função de bater.
E bate, quase sempre, forte.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Vitória Rara

dedicada a Victor Jara

Ouviu-se um clamor no Estádio Nacional,
Mas não era um grito de gol. Era a voz dos
que não se entregaram, ainda que cercados.
Não se acuaram ante ao inimigo, e contidos,
e amontoados, eram conduzidos ao vestiário
para serem massacrados (talvez o inside tenha
vindo de algum assessor alemão,
veterano das SS, que exclamou de pronto:
_ Os chuveiros. Mein gott, os chuveiros!)

O augusto representante do império
com suas armas e legiões, não poupou
sua voz valente, seu corpo e emoções.
Infligiram toda dor que podiam,
trucidaram suas falanges, mas não derrotaram
seu espírito inquebrantável.
Com as mãos moídas, os fascistas gritavam:
_ Toca! E lhe puseram um violão.
E qual foi sua resposta: _ Eu não toco pra vilão,
Toco pro povo insurgente, meu som é revolução.

Daniel Braga & Daniel Oliveira

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dia nacional da poesia

O dia 14 março é chamado "O Dia Nacional da Poesia" e foi escolhido por ser a data de nascimento do grande poeta e lutador do povo, Castro Alves.

Como forma de homenageá-lo, segue um dos seus maiores poemas.

Vozes d'África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
- Infinito: galé! ...

Por abutre - me deste o sol candente,
E a terra de Suez - foi a corrente
Que me ligaste ao pé...
O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.

Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;

E ela dorme nos templos do Deus Brama,
- Pagodes colossais...
A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.

Artista - corta o mármor de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! ...
Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela - doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.


Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...
E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...
Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:

"Abriga-me, Senhor!..."

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . "
Nem vêem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.
De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio... um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...

- Serei tua Eloá. . . "

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa - arrebatada -
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do universo,
Eu - pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...


São Paulo, 11 de junho de 1868